Vejo-me o tempo todo dedicando-me a atividades com intuito de transcender minha condição de animal. Fazemos isso o tempo todo. Escolhemos roupas, palavras, tecnologias, artes, decorações que nos façam parecer mais do que humanos, aproximar-se mais do que consideramos divinos. Queremos ser deuses.
Queremos? Quero.
Arte, o belo, me aproximam aos deuses. Cada acerto sinto-me mais próximo a eles.
E sempre tropeço, e lembro que sou só mais um humano. Frustração, alívio, as vezes remorso dançam a minha volta, criancinhas debochadas em uma ciranda cantando deboches pra mim.
Sou só humano. Sangro, canso, desejo, sofro, desaprendo e me fodo pra caralho.
Assisto outros mais próximos de tocar os céus e me consolo, medíocre, dizendo pra mim que eles pagaram um preço. Certamente houveram sacríficios que não faço, abriram mão de coisas que vivo, conheço.
Deuses, santos, heróis, lendas, campeões, estrelas, gurus, iluminados, gênios... Nomeie.
Eu acredito que estaria melhor se simplesmente me aceitasse como um animal humano homo sapiens, nada além. Sem paixões, ardências. Quero serenidade. Eu envelheço. Pereço. E morro.
Que eu viva, consuma aquilo que julgo acima do humano, mas veja como dádivas, e não como transformação para algo acima da mim. E lembre que vou continuar humanamente me fodendo pra caralho.
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